A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O INFANTE PORTUGUÊS QUE OS ESPANHÓIS CANTAM

Foto de Nova Portugalidade.

"Por Dios, por la Patria y el Rey lucharon nuestros padres,
Por Dios, por la Patria y el Rey lucharemos nosostros también."


Os interessados na História recente do Reino de Espanha conhecerão as campanhas empreendidas pelos Carlistas, primos ideológicos dos Miguelistas portugueses, contra os governos liberais da Espanha oitocentista. O seu combate desigual, e muitas vezes heróico, marcou indelevelmente os últimos dois séculos da vida espanhola. Teve, também, grande e duradouro impacto político, pois os carlistas, ao contrário dos miguelistas portugueses, conservaram até recentemente papel central nos equilíbrios políticos de poder. Na guerra civil de 1936-1939, que opôs as esquerdas às direitas em brutal e sanguinolento conflito, os carlistas formaram parte da coligação vencedora. Hoje ainda, o ramo carlista congrega alguns monárquicos espanhóis, particularmente nas regiões de Navarra e do País Basco. Menos sabido é que um dos mais celebrados chefes carlistas era português e nascido no Rio de Janeiro.

O hino carlista, a Marcha de Oriamendi, é conhecido cântico patriótico espanhol. Foi, também, parte do hino nacional espanhol durante o regime do General Francisco Franco. O encontro celebrado na marcha, a Batalha de Oriamendi, foi travado entre os exércitos fiéis a Dom Carlos Maria Isidro, Infante de Espanha e irmão do anterior monarca Fernando VII, de persuasão política tradicionalista e anti-liberal, e o exército liberal de Isabel II de Espanha, sobrinha de Carlos e filha de Fernando. Entre os isabelinos marchavam numerosos ingleses da Legião Auxiliar Britânica, enviados pela Grã-Bretanha para o esmagamento da insurreição carlista. A batalha terminou em rotundo triunfo para os fiéis a Dom Carlos, não obstante a larga superioridade de homens e armas dos isabelinos. O general carlista era Dom Sebastião Gabriel de Bourbon e Bragança, Infante de Portugal.

Simultaneamente neto de Dona Maria I e do filho daquela, Dom João VI (o seu pai, Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, era filho da Infanta Mariana Vitória de Portugal, por sua vez filha de Dona Maria e irmã de Dom João VI; a sua mãe, a Infanta Maria Teresa de Portugal, era filha de Dom João VI e neta de Dona Maria), o Infante nasceu no Rio de Janeiro, em 1811, e foi baptizado como Sebastião Gabriel Maria Carlos João José Francisco Xavier de Paula Miguel Bartolomeu de S. Geminiano Rafael Gonzaga de Bourbon e Bragança. Neto, como vimos, de dois monarcas portugueses, Dom Sebastião era, ainda, bisneto do Rei Carlos III de Espanha. Contudo, o único título que carregou desde o berço foi o de Infante de Portugal - o de Infante de Espanha só o receberia em 1824.

Devido à invasão francesa da metrópole portuguesa, o Infante Dom Sebastião nasceu, como se viu, no Rio de Janeiro, e no Rio de Janeiro residiu até 1821. Nesse ano, retornando a corte portuguesa à Europa, Sebastião seguiu-a também. Não, todavia, para Lisboa. Embora o seu pai tivesse falecido em 1812, Sebastião e a mãe instalaram-se em Madrid no regresso à Europa. A sua mãe, como Infanta de Espanha, o que era por direito do marido já morto; Sebastião, como Infante de Portugal com razoável pretensão aos seus direitos espanhóis. Estes foram-lhe reconhecidos por Fernando VII de Espanha, passando Sebastião a Infante de Espanha e de Portugal.

Com a morte de Fernando VII e a guerra civil entre os partidários de Carlos, defensores da monarquia tradicional e católica, e os de liberais de Isabel confrontando-se pelo futuro da Espanha, o Infante Sebastião acabaria por erguer armas por Carlos. Nisso foi muito influenciado pela sua mãe, Maria Teresa de Portugal, cuja simpatia estava com o partido carlista. Em 1838, de resto, a mesma Maria Teresa casar-se-ia em segundas núpcias com Carlos Maria Isidro, convertendo-se desse modo em Rainha de Espanha para os carlistas. Foi incentivado pela mãe, pois, que o Infante Sebastião se alistou na causa de Carlos, e essa causa defendeu esmeradamente. Oriamendi foi, provavelmente, a maior das vitórias carlistas contra as forças liberais espanholas.

Derrotados os carlistas, Sebastião foi forçado ao exílio e privado de todos os seus títulos espanhóis, passando novamente a assinar apenas como Infante de Portugal. Regressou a Espanha décadas mais tarde, perdoado pelos vencedores e obtendo a recuperação das dignidades que lhe devia o país nosso vizinho. Tentou mais que uma vez a reconciliação entre os ramos desavindos da família, mas sem sucesso. Morreu em 1875 com 63 anos.

RPB

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

SOMOS NACIONALISTAS? CLARO QUE NÃO, SOMOS DA PORTUGALIDADE

Foto de Nova Portugalidade.

O nacionalismo é coisa nova em Portugal; nova e tardia, inventada em finais do século XVIII e exportada pela Europa oitocentista por uma verdadeira "internacional nacionalista" - o "cosmopolitismo nacionalista" a que aludia Anne-Marie Thiesse na sua incontornável Criação das Identidades Nacionais - que fez estragos, dividiu o que era uno e juntou o que nunca estivera unido.

É hoje sabido que o nacionalismo nasceu da invenção de um passado mítico, socorrendo-se as mais das vezes de manipulação de fontes literárias, invenção de textos e, até, invenção de línguas anteriormente quase inexistentes. Tudo começou com Macpherson, que literalmente inventou o celtismo. Depois, foi a vez de Herder, de Goethe e dos irmãos Grimm criarem uma identidade alemã, jamais comprovada, a partir de colecções de lendas, delas retirando um "volkstum" e um "volksgeist" (um espírito popular) que indiciava uma "essência nacional". Ora, se perguntassem a Mozart se era alemão ou austríaco, este responderia que não era nem uma coisa nem outra. Considerar-se-ia, apenas, súbdito do arcebispo-príncipe de Salzburgo e, por extensão, súbdito dos Habsburgos.

Grande parte dos "nacionalismos" nasceram de colagens, recortes e importações literárias. O "nacionalismo" sérvio foi inventado por Prosper Mérimée na célebre La Guzla, o "nacionalismo helénico" saiu das antologias de Claude Fauriel e o mito de uma Roménia latina foi urdido pelos irmãos Shott a partir de contos valáquios. Depois, coube aos nórdicos desenterrarem sagas a partir da oralidade (a oralidade não resiste a duas ou três gerações), pretendendo recriar o volkstum viking, preenchendo um hiato de mil anos obscuros.

Este movimento que sacudiu a Europa ao longo de Oitocentos - o nacionalismo - serviu para a engenharia da fabricação dos Estados contemporâneos e teve como instrumento de difusão a imprensa (o periodismo), a fixação de "línguas nacionais" através de dicionários e gramáticas, bem como a rede de ensino primário. Pode-se dizer, com propriedade, que o nacionalismo é (e foi), nesta acepção, uma invenção; em suma, uma ideologia.

Lembrando o sábio Popper, o nacionalismo constitui a "secularização da superstição religiosa" em sociedades onde o sagrado e o religioso pedem novas ligações e devoções.

Contudo, se há identidade que prescindia desse esforço de estandardização forçada, esse era Portugal. Portugal não precisava de importar o que quer que fosse pois erigira, ao longo de séculos, uma identidade compacta e homogénea - uma consciência nacional - com provas dadas desde a revolução de 1383-85: uma só língua, uma só religião, contornos geográficos estabilizados no século XIII e, depois, um sentido de comunidade que se exportou e incorporou outros "portugueses" pela simples exigência da fidelidade ao Rei de Portugal e ao catolicismo.

O "nacionalismo postiço" europeu de Oitocentos fez estragos que mataram a identidade portuguesa. O liberalismo, ao inventar o cidadão, privou de "cidadania identitária" todos aqueles que se consideravam "portugueses" desde o século XVI. Depois, o estúpido Acto Colonial, separou os habitantes do ainda vasto império remanescente em "colonizadores" e "colonizados". O patriotismo português fora um alicerce da capacidade de resistência e unidade. O "nacionalismo português", aqui chegado no comboio de Paris, empobreceu, reduziu e matou.

Dizia-me há dias um amigo que o "nacionalismo" é o bilhete de identidade de uma sã consciência do grupo. Respondi-lhe que não: esse nacionalismo não é nosso, é uma ideologia, uma simplificação, uma impostura. O verdadeiro esteio da unidade dos "portugueses" está no patriotismo, o mesmo que venceu no passado e uniu, em vez de separar. Os cronistas holandeses que escreveram sobre os Guararapes indignaram-se pelo facto dos seus exércitos - brancos, louros e calvinistas - haverem sido destroçados por um exército de escravos negros, mestiços esfarrapados e brancos papistas. Da Europa nem sempre chega boa mercadoria. O "internacionalismo nacionalista" terá sido, sem dúvida, da pior contrafacção.

MCB


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

ABRAÇANDO O MUNDO

Foto de Nova Portugalidade.

Tal como D. Afonso Henriques no processo da Reconquista, também as frotas dos Descobrimentos levaram consigo o espírito hospitaleiro e uma forma peculiar que sempre caracterizou a presença portuguesa nos diferentes lugares, povos e nações, desde Marrocos até aos confins do mundo até então conhecido. 

Voltaire, o bem conhecido filósofo francês do século XVIII, elogiou os Portugueses como exemplo de homens extraordinários que, «mau grado toda a ignorância desses tempos, começaram a merecer então uma glória tão durável quanto a do universo...» E acrescenta: «Em menos de cinquenta anos os Portugueses haviam descoberto cinco mil léguas de costa... tudo o que a natureza produziu de útil, de raro, de agradável, foi trazido por eles à Europa.»

Foi também este mesmo filósofo que distinguiu entre os «Descobridores», os Portugueses, e os «Conquistadores», os Espanhóis. Compreende-se esta distinção: dois milhões e meio de aztecas foram chacinados no México, depois de saqueados todos os tesouros; um milhão e oitocentos mil incas morreram pelo saque do ouro. Igualmente, dos guanches, povo primitivo das Canárias, não restou um único. Se a estes números somarmos os valores apontados por muitos autores relativos às espantosas chacinas efectuadas pelos ingleses nos chamados «índios» americanos, podemos ficar com a imagem de formas de estar no mundo dos homens e dos povos, bem diferentes da forma de estar portuguesa. Por isso, misturar, numa suposta e fictícia «epopeia ibérica» dos descobrimentos, homens como Francisco Pizarro ou Fernando Cortez, com os esforçados e valorosos descobridores portugueses, não pode deixar de ser profundamente injusto e afrontoso.

A abertura de novos mundos ao mundo, de que os Portugueses foram os autores, tão admirada e invejada pelos povos europeus, teve ainda características ímpares que mesmo os piores detractores não podem negar. A relação humana estabelecida com outros povos e nações, o estudo da sua língua e dos seus usos e costumes, assim como da fauna e da flora, permitiram avanços científicos excepcionais, abrindo de par em par as portas do mundo moderno. A par deste conhecimento da gente das novas terras descobertas, os Portugueses tiveram igualmente a preocupação de transmitir os seus conhecimentos em áreas tão diversas como a agricultura, as artes e os ofícios.

O conhecimento da língua local foi sempre uma das grandes preocupações dos descobridores lusos, assim como dos missionários que os acompanhavam. Foram numerosos os manuais de aprendizagem compilados, quer das línguas nativas quer do português para os povos com quem entravam em contacto. A aprendizagem das línguas nativas, preocupação que foi uma das características da colonização Portuguesa, verdadeiramente pioneira, permitiu conhecer melhor o modo de pensar dos diferentes povos sobre todos os aspectos da sua vida. Este foi, sem dúvida, mais um dos enormes serviços prestados pelos Portugueses à Humanidade, trabalho de incalculável valor, pouco conhecido e ausente dos manuais de história. Reconheçamos o seu devido valor.

Miguel Martins

domingo, 18 de fevereiro de 2018

PORTUGAL, O PAÍS QUE OS OUTROS PAÍSES OUVIAM

Foto de Nova Portugalidade.

A fotografia data de 1905. De visita a Lisboa, o Imperador da Alemanha e Rei da Prússia Guilherme II observa com Dom Carlos I, Rei de Portugal e dos Algarves, exercícios realizados pelo exército português. O Imperador da Alemanha enverga uniforme português de coronel honorário do Regimento de Cavalaria N.º 4. A visita do Imperador alemão a Portugal foi uma das muitas vitórias diplomáticas do Rei Dom Carlos, cuja acção energética fez de Portugal nação determinante da arena europeia.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

ELOGIO DE DOM JOÃO III, UM DOS MAIORES PRÍNCIPES PORTUGUESES

Foto de Nova Portugalidade.

Injustamente tido por fanático, fraco e acanhado, Dom João III foi, à imagem de tantos grandes monarcas portugueses, vítima de longa e enérgica campanha difamatória. Coroado jovem num tempo em que todas as grandes monarquias da Europa tinham jovens por seu chefe, João herdou o império aos 19 anos, estabilizou-o após a súbita dilatação operada por seu pai, defendeu-o e fortaleceu-o. Em tudo foi formidável. Confirmando o apetite português pelo governo forte e centralizado, João convocou cortes apenas três vezes em trinta e seis anos de reinado. Na cultura, o seu governo coincidiu com período verdadeiramente áureo para Portugal, facto devido, em larga medida, à intervenção do Rei: foi Dom João quem ordenou que se fizesse em Coimbra o Colégio das Artes e Humanidades, instituição a que afectou recursos avultadíssimos e para onde convidou a fina-flor da intelectualidade europeia. Foi também com o apoio de Dom João que se impuseram na Europa os nomes de Garcia de Resende, Garcia de Orta, João de Barros, Gil Vicente ou Pedro Nunes. Erasmo de Roterdão marcaria a sua admiração por João III nas suas Chrysostomi Lucubrationes, obra que dedicou ao Rei português.

Na política externa, no adestramento científico, na produção legislativa, no fomento das letras ou no fortalecimento do Império, os esforços de Dom João evidenciam inteligência, bom senso e dedicação imensa ao bem do Estado. Para povoar, desenvolver e defender o Brasil, o rei ordenou a divisão do território em capitanias e, logo, a constituição de um governo unificado. Em 1548, Dom João daria ao Brasil a sua primeira constituição, o chamado Regimento de Tomé de Sousa, dotando-o do essencial da sua ossatura institucional e administrativa. No Mediterrâneo, onde crescia sempre mais a sombra do Turco, João III ofereceu os navios, homens e ouro de Portugal para defesa da Europa, participando com a Espanha na reconquista de Tunes. No Oriente, defendeu-se uma e outra vez a Índia dos turcos, ganhou-se Macau, chegou-se ao Japão e negociou-se com a Espanha o Tratado de Saragoça, reservando a Ásia a Portugal e entregando o Pacífico a Castela. Com obra tão vasta e governo tão rico em exemplos de sucesso militar, científico, humanístico e diplomático, parecerá extraordinário imaginar João III como inaugurador de um tempo de decadência portuguesa. Pelo contrário, Portugal atingiu com Dom João o ápice da sua História. Poderia pedir-se mais ainda de um só homem?

RPB

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O FILHO LUSO-MARROQUINO DE AFONSO DE ALBUQUERQUE

Foto de Nova Portugalidade.

De uma interessante comunicação há tempos produzida por Rui Manuel Loureiro num colóquio promovido pela Biblioteca Nacional e pelo Movimento Internacional Lusófono, ficou-se a saber que está a terminar uma longa investigação sobre a infância e juventude de Afonso e Albuquerque. Após porfiado trabalho, Rui Loureiro desvendou, finalmente, os anos obscuros daquele que viria a ser o fundador do império português no Oriente. Albuquerque deixou uma criança, nascida em 1501 e cuja educação confiou à sua irmã. Essa criança (Brás de Albuquerque), que viria a ser o herdeiro da fortuna do pai e ocupou relevantes funções, era filho de uma rapariga marroquina que o Terribil terá conhecido durante os anos em que serviu nas praças do norte de África. Onde está o suposto fanático religioso, o matador de mouros e o inimigo do Islão? Como a abundante documentação o atesta, Albuquerque percepcionou as diferenças e várias obediências do mundo islâmico, usando-as para aplicar o seu plano de domínio do Mar Vermelho e Golfo Pérsico. Foi um entusiástico defensor de uma aliança entre Portugal e a Pérsia xiita.

Dessa amplitude mental é também Brás, seu filho, prova eloquente. Tudo sugere que a mãe do
filho de Albuquerque não seria muito diferente daquela que escolhemos para ilustrar este postalinho.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

UMA AMIGA DE PORTUGAL E DA VERDADE

Foto de Nova Portugalidade.

Por razões profissionais, recebi hoje um velho diplomata português, homem experimentadíssimo, excelente conversador, culto e com quem partilho interesses comuns. Foi durante muitos anos Embaixador de Portugal no Irão, ali desenvolvendo um notável trabalho.

Entre as muitas histórias que pretende fixar numas memórias, contou-me um curioso episódio passado com Mary Robinson, antiga Presidente da Irlanda e, depois, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. De passagem por Teerão, Mary Robinson presidiu a um congresso sobre direitos humanos ao qual acorreram centenas de delegados de todo o mundo.

Após a intervenção de um orador mais exaltado, que repetira as baboseiras ainda marcadas pela retórica de Bandung, Mary Robinson pediu a palavra e corrigiu o irritante discursante: "estando de acordo com muito do que disse, lamento que continue a confundir os portugueses com outros colonialistas, pois por muitos defeitos que os portugueses possam ter, nunca foram como os outros. Foram, se tal expressão se pode usar, bons colonialistas, os melhores colonialistas". O Embaixador de Portugal sentiu-se inchado de orgulho. Os outros, calaram-se.

MCB

PORTUGUÊS DE MALACA FALOU À IMPRENSA SOBRE A CONTRIBUIÇÃO CULTURAL PORTUGUESA

Foto de Nova Portugalidade.

O nosso amigo José de Santa Maria, português de Malaca, falou à imprensa malaia sobre a valiosa contribuição dos portugueses para a cultura daquele país asiático. Portugal está naquela área da Ásia desde 1511 - e dela nunca saiu verdadeiramente. Os portugueses têm de meter na cabeça que o seu país não é o que parece. É maior e é global.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

MISSAS EM MEMÓRIA DE SUA ALTEZA O SENHOR DOM HENRIQUE DE BRAGANÇA

Recordamos que HOJE, dia 14 de Fevereiro de 2018, será celebrada uma Missa por Alma de Sua Alteza o Senhor Dom Henrique de Bragança, Infante de Portugal e Duque de Coimbra, no dia em que passa um ano desde a sua partida.
A Missa contará com a presença de Sua Alteza o Senhor Dom Miguel de Bragança, Infante de Portugal e Duque de Viseu, e decorrerá na Igreja dos Carmelitas (Stella Maris), à Foz do Douro, pelas 19h00.



A Real Associação de Viseu informa que HOJE, dia 14, às 
19:00 horas, na igreja Paroquial de Santar, se realizará a Missa em Memória de Sua Alteza o Senhor Dom Henrique de Bragança, Infante de Portugal e Duque de Coimbra.

BEM-VINDA, ANUNCIAÇÃO

Foto de Nova Portugalidade.

"Anunciação", de Álvaro Pires de Évora, também conhecido entre os italianos como "Álvaro Pietro di Portogallo". Maravilha da arte portuguesa de Quatrocentos, esta obra foi ontem adquirida pelo Estado português realizado em Nova Iorque. Está agora a caminho de Portugal.


MARINHA PARA TODOS

Foto de Nova Portugalidade.

Para a Exposição Colonial Internacional de Paris de 1931, certame destinado a exibir as glórias imperiais europeias, Portugal não se limitou a mostrar a antiguidade da sua presença em África, a diversidade de povos e culturas, as artes nativas e a obra material desenvolvida. Ao contrário da França, da Bélgica e da Grã-Bretanha, cujos pavilhões eram guardados simbolicamente portropas de infantaria colonial, Portugal para ali destacou militares da sua Marinha de Guerra, não marinheiros europeus, mas marinheiros negros. Foi um choque, pois a ideia que então as potências coloniais de si faziam enquanto Estados vocacionados para a expansão, repelia a possibilidade de os africanos poderem ser marinheiros.

Foto: 1º Marinheiro da Marinha Portuguesa de guarda ao Pavilhão de Angola.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O QUE DISSE LENINE SOBRE O REGICÍDIO EM PORTUGAL

Foto de Nova Portugalidade.

O que disse Lenine do brutal assassinato do Rei Dom Carlos e do seu filho, o Príncipe Real Dom Luís Filipe

A notícia do assassinato do rei D. Carlos I e do príncipe herdeiro, Luís Filipe, abalou a opinião pública russa da época, mas nem todos choraram a morte dos dois membros da família real portuguesa.

"Petersburgo está repleto de impressões sobre a tragédia de Lisboa. Todas as conversas abordam apenas esse tema... A missão portuguesa, situada na Rua Mokhovaia, a partir das duas horas, ficou cercada de coches e pessoas que vieram apresentar condolências", noticiava a Agência Telegráfica de São Petersburgo.
Esta agência informava também que recebeu "a primeira notícia apenas às 9 horas da manhã, visto que o telegrama chegou com significativo atraso devido a uma avaria na linha".

"Assassinato do rei de Portugal e do Príncipe herdeiro", titulava o diário Russkoe Slovo no dia 04 de Fevereiro.

"Às seis da tarde, na Rua do Arsenal, o rei Carlos e o príncipe herdeiro, que regressavam num coche aberto de Vila Viçosa, foram assassinados a tiro. No mesmo coche seguiam a rainha D. Amélia e o infante Manuel. O infante foi ligeiramente ferido e a rainha saiu ilesa", escrevia o correspondente desse jornal em Lisboa.

Segundo o correspondente russo, "logo após o assassinato, começou a correr o boato de que o crime foi obra de uma conjura, de que a polícia estava ao corrente. O facto de os assassinos terem sido mortos no local e não detidos... é visto como uma intenção da polícia esconder os rastos da conjura. Se a polícia estivesse minimamente vigilante, o assassinato teria sido impossível".

Quanto à autoria do crime, as notícias eram confusas: "Pensa-se que os assassinos foram recrutados pelos republicanos e os terroristas não estão ligados a esta conjura", transmitiu o correspondente do Russkoe Slovo.

"Pensa-se que um dos assassinos é francês e outro espanhol", informava a Agência de Informação de Petersburgo.

"Quem assassinou o Rei de Portugal?" – perguntava o Russkoe Slovo a 08 de Fevereiro, e respondia citando Guerra Junqueiro: "na conjura não participou o Partido Republicano, mas os chamados exaltados, que não obedecem à disciplina do Partido Republicano e vão mais longe nas tendências revolucionárias".

Vladimir Lenine, futuro dirigente da União Soviética, escreveu sobre o regicídio no artigo: "Sobre o que aconteceu ao rei português", publicado no jornal Proletarii de 19 de Fevereiro de 1908.

"A imprensa burguesa, mesmo a mais liberal e democrática, não pode passar sem a moral da extrema-direita ao abordar o assassinato do aventureiro português", escreveu Lenine, acrescentando que "...o sucedido com o rei português é verdadeiramente "um desastre profissional" dos reis".

"Nós, da nossa parte, acrescentamos apenas que só podemos lamentar uma coisa: que o movimento republicano em Portugal não tenha, decidida e abertamente, dado cabo de todos os aventureiros. Lamentamos que no sucedido com o rei português seja ainda evidente o elemento de conjura, isto é, de terror que, na sua essência, não alcança os objectivos, sendo fraco o terror verdadeiro, popular, realmente renovador, que tornou famosa a Grande Revolução Francesa", continua Lenine.

Segundo ele, "até agora, em Portugal conseguiu-se apenas amedrontar a monarquia com o assassinato dos dois monarcas, mas não exterminar a monarquia".


Publicado a 28 de Janeiro de 2008 pela Agência Lusa.


MEMÓRIAS DO JAPÃO PORTUGUÊS

Foto de Nova Portugalidade.

A PRESENÇA PORTUGUESA NO JAPÃO, A PARTIR DE 1543, INFLUENCIOU AS SUAS ARTES TRADICIONAIS, particularmente, na grande Ilha de Kyushu, no Sul do Arquipélago Nipónico, onde mais se fez sentir a nossa actividade comercial e missionária. A representação dos "bárbaros do sul", os namban-ji passou a ser comum, nomeadamente, em extraordinários biombos narrativos, em que a cena principal era a chegada anual do "Barco Negro" a Nagasáky, e o cortejo subsequente de mercadores e religiosos pela cidade.

Mas, vamos restringir-nos hoje a um único aspecto, as figurações de navios portugueses ou de símbolos cristãos, nas "tsubas", que são as guardas de mão das espadas japonesas. A sua forma e função não foram alteradas, mas os samurais convertidos não dispensavam lutar com as suas armas adornadas simbolicamente com símbolos cristãos, vulgarmente uma ou mais cruzes. 

O seu diâmetro anda normalmente em volta dos 7 cm, possuem o orifício para a lâmina, sendo depois, mais ou menos perfuradas, para a realização dos motivos decorativos. Mostramos quatro, todas do Período Momoyama, ou seja o fim do século XVI e início do século XVII, em ferro, decoradas com barcos, uma em forma de cruz, outras com Crucifixos, e até uma que se abre e tem dentro um Crucifixo em relevo, certamente já do período da proibição do Cristianismo. Mostramos igualmente uma espada de samurai, ou parte dela, para elucidar a função da "tsuba" ou guarda de mão.


Pedro Dias, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra

Foto de Nova Portugalidade.

Foto de Nova Portugalidade.

Foto de Nova Portugalidade.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

AINDA O REGICÍDIO (FOI HÁ 110 ANOS)

Foto de Nova Portugalidade.

Serviu-se o ressentimento de meios de grande violência psicológica, pela palavra e pela palavra escrita, abrindo portas e justificando o revolverismo e o bombismo, a apologia da violência e até o regicídio, quiçá o mais vergonhoso acontecimento da vida política portuguesa. Vulgarizada a violência, tornou-se justificável toda a violência que foi a história da chamada 1ª República; em suma, aquilo a que um arrependido, Homem Cristo Pai chamou de banditismo político.

Para Ramalho Ortigão, o regicídio - ou antes, magnicídio, pois pretendia matar por atacado uma família, mais o primeiro-ministro - tratou-se da associação de um punhado de homens (mandantes, pagantes e executantes) que se reuniram com o declarado propósito de matar um rapaz. Foi essa matilha de celerados e criminosos que a república elevou ao panteão dos cidadãos exemplares, manchando-se para todo o sempre.

O crime de 1908 anunciou o corte de Portugal com setecentos anos de história, o assalto ao poder por uma minoria que jamais se submeteu ao veredicto dos portugueses, a confiscação do Estado por organizações secretas e grupos armados, o fim do Estado de Direito, anos de balbúrdia seguidos de ditadura e de ditadura seguida por balbúrdia. Sem o regicídio não teria havido intervenção na Grande Guerra, nem deriva radical jacobina, nem reacção católica autoritária, nem revolução marxista, nem descolonização de pé descalço, nem genocídio de Timor, nem entrada aos empurrões e sem condições para a CEE. Estaríamos, certamente, bem mais ambientados às práticas, ritmo e crenças da tolerância, da vivência da liberdade e do patriotismo; em suma, estaríamos bem mais civilizados. Portugal perdeu quase cem anos com a burla, as superstições e desmandos. Ainda é tempo de recuperar ?

MCB

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DE "PORTUGUÊS" NA ÁSIA

Foto de Nova Portugalidade.

Quando os europeus chegaram ao Oriente, receberam os exónimos (1) genéricos de Feringi (Índia), Farang (Sião), Ferengi (península Malaia) ou Falangxi (China), supostamente importados do árabe Frank (Franco), remetendo para o período das cruzadas cristãs na Terra Santa. Depressa, porém, ao exónimo – que ainda hoje se mantém e se traduz hoje por estrangeiro branco – juntaram-se outros adjectivos, uns de carga pejorativa, outros procurando caracterizar com maior precisão os forasteiros de tez clara vindos dos mares ocidentais: Bengali Puthe (brancos de Bengala) e Nasrani (Nazarenos) e Serani entre os malaios, Gwailo (fantasmas) para a língua cantonense, Nanbanjin (bárbaros do Sul) para os japoneses.

A definição dos etnónimos(2) das comunidades luso-descendentes é surpreendente, pois tendeu a unificar-se num só adjectivo que exprimia, para o grupo e para os seus vizinhos, o modo de ser e a origem do grupo: eram, ou passaram a ser, apenas, Portugueses, sinónimo de católico.

Miguel Castelo-Branco

(1) Exónimos: são nomes estrangeiros para nomes próprios, especialmente topónimos e grupos étnicos.
(2) Etnónimos: nomes de povos, tribos, castas, comunidades políticas ou religiosas que possam ser entendidos num sentido étnico.


Para saber mais:
a) Margaret Sarkissian, D'Albuquerque's children: performing tradition in Malaysia's Portuguese settlement, Chicago, University of Chicago Press.

b) Howard Federspiel, Sultans, shamans, and saints. Islam and Muslims in Southeast Asia, Chiang Mai, Silkworm Books, 2008

Foto de Joaquim Magalhães de Castro.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A VENERÁVEL SERVA DE DEUS LEONOR RODRIGUES

Foto de Nova Portugalidade.

"Na Era de 1639, um ano antes da Aclamação deste Reino, teve esta visão a Venerável Serva de Deus Leonor Rodrigues, na qual viu o Duque de Bragança sentado num Trono Real, e a Santa Teresa que com a mão esquerda lhe metia um ceptro na mão; e deu-se a entender a esta Serva de Deus, que dali a um ano teriam os Portugueses Rei natural, por intercessão da Santa, e por estar a sua mão esquerda [relíquia] em Portugal; por isso com esta mão lhe punha o ceptro, e não com a direita. Assim se cumpriu no ano seguinte de 1640."

A Venerável Leonor Rodrigues é deste modo descrita no "Ano Histórico, Diário português", obra publicada em 1714 por Lourenço Justiniano de Anunciação:

"A Venerável Leonor Rodrigues foi natural da Vila de Mourão da Província de Alentejo. Na Cidade de Évora tomou o hábito de Terceira Carmelita Descalça, e por grandes mestres espirituais desta Religião foi dirigida por espaço de cinquenta anos contínuos. Era dotada de muitas virtudes. Teve espírito penitente, extático, milagroso, e profético. Depois da preciosa morte que teve neste dia [11 de Abril], ano de 1639, ficou como se estivera viva, tratável e flexível. Toda a Cidade a venerou sempre, e acompanhou o seu enterro até à sepultura, que se lhe deu na Igreja do Convento dos Remédios de Carmelitas Descalços."

O IMPÉRIO INVISÍVEL: A PORTUGALIDADE ASIÁTICA

Foto de Nova Portugalidade.

Houve alguém que um dia se referiu a um “Império Sombra” português localizado a Oriente do Cabo da Boa Esperança. Outro investigador chamou-lhe “Império Informal” . Não havia sido nem comprado, conquistado ou financiado por Goa ou Lisboa, mas fora-se povoando de forma pacífica por soldados retirados do serviço activo, bem como por fugitivos. Casaram, assentaram e ficaram.

Chamemos-lhe “Império Invisível”, pois estava por todo o lado e em local algum, nem era entendido como tal nem pelos seus membros nem pelos povos a que se acolhiam, mas que, no entanto, funcionava como uma poderosa rede clientelar, de afectos e defesa de uma certa ideia de fraternidade universal muito parecida com a cultura de resistência, teimosa mas inaudível, da diáspora judaica.

Porém, ao contrário de judeus e arménios, que se encontravam um pouco por todo o Oriente tocado pelas rotas comerciais árabes e persas, as lusotopias mestiças identificavam-se com um Estado presente no continente (Portugal), ligando-se-lhe por laços, vagos mas poderosos de lealdade cultural, linguística, mas sobretudo religiosa.

Todos estes convictamente auto-proclamados portugueses, fossem ou não descendentes de portugueses da Europa, identificavam a sua diferença e origem como grupo invocando ancestralidade – real ou mítica – num “homem barbudo ” e católico que um dia chegara e era o fundador da linhagem.

Viviam em bandéis ou kampong, conceito que recobre aldeamentos e povoações de dimensão e densidade populacional variável existentes, sobretudo na fachada marítima do Sul da Ásia e do Sudeste-Asiático. Estes bandéis eram ocupados por populações religiosamente homogéneas centradas em torno de um templo, lugar de culto ou edifício onde se reproduzia a inculturação; sociedades vincadamente autocéfalas e com uma estrutura social centrada na família nuclear.

Estas povoações exibiam clara especialização económica e produtiva que as transformavam em unidades sociais distintas das circunvizinhas. Os bandéis e kampong podiam ser aldeias isoladas, mas também bairros incrustados em zonas periurbanas, distinguindo-se do restante tecido envolvente pela forte identidade cultivada pelos seus membros. No Sudeste-Asiático pré-moderno e moderno, foram os agentes por excelência de intermediação comercial, linguística e religiosa com os mundos exteriores e detiveram, até ao advento do Estado-nação ou da colonização directa, foros e liberdades muito similares a comunas.

Miguel Castelo-Branco

Imagem: grupo folclórico de Malaca.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A CORRUPÇÃO, UMA DAS CHAGAS DA PORTUGALIDADE


Foto de Nova Portugalidade.


Quem hoje olhar para os países de língua portuguesa, facilmente constatará que estes se encontram, de uma forma geral, minados pela corrupção política. É um fenómeno que martiriza a verdadeira essência da Portugalidade: os povos dos países que a compõem. No Brasil, em Angola e em Portugal, a situação é ainda mais danosa do que na restante Portugalidade. Em Angola, uma elite suga todos os proventos dos imensos recursos naturais do país, acumulando uma riqueza colossal que se espelha nos arranha-céus envidraçados de Luanda, enquanto a população comum vive em bairros de lata e não tem o que comer. No Brasil, as favelas são bem conhecidas. Em Portugal, os escândalos de promiscuidade entre poder político e poder económico-financeiro têm vindo ao de cima. 

A Portugalidade possui características extraordinárias que nos devem entusiasmar na reconstrução do seu futuro, mas também tem desafios e dificuldades a serem ultrapassados; não devemos ignorá-los e relegá-los para debaixo do tapete. A corrupção é um deles, e é um problema relativamente simples de se compreender: o poder político encontra-se manietado pelo poder económico-financeiro que o domina. Como é que o faz? Visto a esmagadora maioria dos políticos não possuírem meios financeiros próprios, os interesses do capital utilizam esta grande vulnerabilidade a seu proveito. Assim, cessadas as funções de ministro, de secretário de estado, ou de outro cargo público, os recém-desempregados políticos necessitam de um outro meio de subsistência financeira, e eis que o encontram em cargos nas empresas privadas que beneficiam directamente das políticas que esses mesmos ex-governantes tomaram enquanto estavam no Estado. 

Este círculo vicioso impede que os recursos fiscais do país cheguem ao financiamento de serviços públicos de qualidade, visto serem desviados para os grandes grupos económicos e financeiros. O resultado é uma população sem saúde, educação ou espaços públicos de qualidade, que vive na degradação e na precariedade, enquanto uma elite egoísta vive no regaço do luxo. É esta a Portugalidade que queremos construir? 

Se uma Federação Lusófona se vier a constituir, os povos da Portugalidade não podem deixar este problema por resolver. Não podem consentir com a existência de políticos que governam contra o bem público, subvertendo completamente o seu propósito, e que destroem o bem-estar do coração palpitante da civilização lusófona: o povo, em quem repousa a soberania da manutenção da identidade da Portugalidade. Não podem consentir com o predomínio do poder financeiro sobre o Estado. A solução? Ou uma grande reforma dos sistemas políticos existentes que dê uma machadada definitiva neste cancro, ou a contínua degradação da situação até esta se tornar insuportável, e aí só novos regimes estabelecidos que rompam os equilíbrios de poder existentes podem limpar esta chaga e trabalhar honestamente para o serviço do bem público da Portugalidade. Uma coisa é certa: enquanto a doença da corrupção não for completamente removida, a prosperidade jamais se atingirá. Estaremos dispostos a enfrentá-la? 

Miguel Martins

DOCUMENTÁRIO: HIMALAIAS, VIAGEM DOS JESUÍTAS PORTUGUESES (4/4)


SINOPSE – Episódio 4
Retemperadas as forças, o viajante e investigador Joaquim Magalhães de Castro parte para o distante e inóspito mas belo Ladakh, na fronteira com o Paquistão, região de forte cultura tibetana, encerrada ao mundo durante boa parte do ano devido ao seu rigorosíssimo Inverno. Nesta extenuante jornada, cercado por uma admirável paisagem onde se intercalam pitorescos vales, habitados e cultivados, com montes lunares onde os animais selvagens são o único sinal de vida, sucedem-se as portelas, entre as quais a segunda mais alta passagem asfaltada do mundo. 

Leh, antiga capital do poderoso reino de Ladakh e importante centro lamaísta, é ponto de partida para mais uma longa e difícil jornada, desta feita rumo ao belíssimo lago de Tsomoriri, junto à fronteira chinesa do Tibete Ocidental, não muito longe das ruínas de Tsaparang. Foi esta a rota em 1631 utilizada por Francisco de Azevedo e João de Oliveira, dois outros importantes pioneiros jesuítas.
Uma vez mais de regresso às planícies hindustanis, Joaquim deixa a capital indiana, Deli, rumo aos Himalaias, desta vez para percorrer a primeira rota utilizada pelo padre António de Andrade. 

Visita as cidades santas de Haridwar e Rishikesh, repletas de crentes hindus, e, sempre na companhia do rio Ganges, que corre nos vales cada vez mais fundos, embrenha-se pelas altas montanhas cobertas de pinheiros e abetos do Garwhal indiano, até ao templo de Badrinat, local de peregrinação dedicado a Shiva, o deus dos deuses, reputado pelas suas águas termais com propriedades miraculosas. 

Era perto de Badrinath, na aldeia de Mana, que os jesuítas portugueses retemperavam forças antes de iniciar a extenuante travessia para o Tibete, quantas das vezes com o risco da própria vida, merecendo, por isso, o justo título de «primeiros alpinistas europeus da História!».


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

PORTUGAL NA CAPELA SISTINA

Foto de Nova Portugalidade.

Pintado por Miguel Ângelo entre 1536 e 1541, um fresco da Capela Sistina faz referência expressa a Portugal. Na cena "O Juízo Final", sobre o altar-mor, uma massa de figuras - apóstolos, santos, almas perdidas e anjos - dividem-se entre os que merecem o Céu e aqueles que, caindo, o não obtêm. Nela se destacam, agarrados a um rosário, dois homens que são puxados para o Céu. Um é africano e o outro oriental, representando cada um deles os continentes de que são originários. Já o rosário representa a oração e é ele que eleva ambos os homens.

Trata-se de uma alusão ao labor missionário dos portugueses na Ásia e em África, ambas áreas de influência, conquista, assentamento e evangelização portuguesa. Levando o Cristo às sete partidas do mundo, pois, os portugueses teriam oferecido o paraíso aos povos que abraçaram. Pouco conhecida esta homenagem a Portugal numa das mais aclamadas obras de arte do mundo ocidental, ela deve orgulhar todos os povos lusíadas.

DOCUMENTÁRIO: HIMALAIAS, VIAGEM DOS JESUÍTAS PORTUGUESES (3/4)



SINOPSE – Episódio 3

A imensidão das estepes e dos lagos tibetanos onde resistem os últimos dos nómadas acompanhados dos seus rebanhos de iaques e ovelhas, o deslumbrante espectáculo multicor do planalto, e as portelas de alta montanha que nos aproximam dos dentes aguçados da cadeia himalaica de neves eternas, são os cenários da próxima etapa do viajante e investigador Joaquim Magalhães de Castro, que refaz as rotas dos jesuítas portugueses, pioneiros nesta parte do mundo. 

A recta em direcção à portela de Lalung La parece não mais acabar. Justifica-se aqui, na sua plenitude, a designação Tecto do Mundo. A panorâmica é de cortar a respiração. No Verão e Outono reside aqui um velho monge, numa tenda de campanha, tentando angariar dinheiro para construir um mosteiro na sua aldeia natal. Ele convida o Joaquim a beber o tradicional chá com manteiga e antes da partida, abençoa-o, à boa maneira tibetana.

Daqui em diante é sempre a descer. Até Zhangmu, última povoação chinesa, o declive é de 3 mil metros, a descida mais acentuada do planeta.

Após o Tibete, segue-se o Nepal onde Joaquim é confrontado com o esplendor arquitectónico de Kathmandu, Patan e Baktapur, cidades Património da Humanidade, e onde tem a rara oportunidade de assistir a uma procissão da deusa viva Kumari, apreciar a excentricidade colorida dos sadhus (ascetas indianos) e presenciar, com a devida distância, às cerimónias de cremação dos mortos junto às margens do rio Bagmati.

A aventura prossegue, agora e comboio, nas planícies da Índia onde tudo começou, em Agra, a magnífica cidade dos tolerantes mongóis islamizados protectores dos jesuítas portugueses. Obrigatórios locais de visita, o Taj Mahal, claro, e o Forte Vermelho, descrito nas cartas dos nosso jesuítas.